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Montepio
Malta. Uma ponte entre o Oriente e o Ocidente
Travel&Safaris
17/05/12, 19:48

Entre baías e golfos, porta de saída do Oriente e de entrada para o Ocidente, Malta tem na arquitectura militar o seu maior encanto. Uma contínua lição de história, onde a presença portuguesa encontra-se constantemente reflectida. Seja numa esquina, numa porta, num edifício, numa simples pedra ou no azul do mar. 
Um pequeno país que oferece um sabor tradicional mediterrânico especial, que conserva uma estranha língua própria e se converteu nas últimas décadas num destino turístico de eleição, quer para quem vá à procura de diversão ou para quem procura algo mais cultural. Um país situado no sul do Mediterrâneo que se orgulha sobretudo da sua riquíssima tradição histórica e do seu legado religioso, uma pequena ilha por onde passaram fenícios, gregos, romanos, árabes, aragoneses, franceses e ingleses, povos que ali deixaram a sua marca na arquitectura, no idioma, na comida e no carácter do seu povo. Mas também portugueses, pois esta é uma ilha que foi base dos Cavaleiros da Ordem de Malta a partir de 1530, uma Ordem Religiosa que teve como alguns dos seus principais e mais destacados Grão-Mestres ilustres portugueses.     Texto Fernando Borges   Do Oriente, das distantes ilhas gregas, de Creta e da Turquia sopra um vento que queima. Com ele, chegam recordações de invasores, enquanto que, esculpidas na guarita de Senglea Point, pousada no vértice de uma enorme muralha, as orelhas e os olhos de pedra dourada esperavam com atenção e paciência esses invasores, olhando a baía e escutando o mar. Do outro lado, cobrindo o promontório orgulhosamente amuralhado, está La Valleta, a capital de Malta, com as suas casas, torres e cúpulas de igrejas que parecem incendiar-se com a luz dourada do final de tarde. Aos seus pés, o grande porto recorta a cidade a sul, dividindo as suas águas por vários golfos e baías, encravando entre muralhas, bastiões e um impressionante casario, as Três Cidades formadas por Senglea, Vittoriosa e Cospicua, num contraste com o seu cais onde, durante séculos, aportavam os galeões dos Cavaleiros de S. João de Jerusalém. Agora, esse espaço é ocupado por navios de cruzeiro, grandes cargueiros ou pelos tradicionais dghajsa, pequenas embarcações de passageiros que nos fazem lembrar as venezianas gôndolas. E é aqui, entre baías e golfos, que se preenchem com águas do grande mar, em que o Mediterrâneo se transforma no Grand Harbour e sob a protecção das muralhas de Sant'Angelo, que todas as histórias de Malta aconteceram. Histórias que nos transportam a 26 de Outubro de 1530, à chegada dos primeiros Cavaleiros da Ordem de São João, às tentativas de invasão dos turcos em 1565, à sua captura por Napoleão em 1798, durante a expedição para o Egipto, ou ainda, e bem mais recentemente, aos bombardeamentos sofridos durante a II Grande Guerra. Em Malta não há montes, rios ou ribeiras. Toda ela é plana, feita de pedra dourada, enseadas e baías, escarpas que acolhem e repelem o mar por onde, durante o inverno e a primavera, circulam pálidos turistas nórdicos ou velhos ingleses que recordam com nostalgia os anos passados sob a coroa de Sua Magestade. No verão, chegam os vizinhos mediterrânicos e os nórdicos mais jovens. Uns procurando o sol e a diversão, outros o encanto arquitectónico e histórico que fazem de Malta o maior museu do mundo de arquitectura militar. E é nas Três Cidades, encerradas dentro de sucessivas muralhas e protegidas por vários fortes, que levou um dia Lord Byron a afirmar terem "sido construídas por príncipes para príncipes", e onde todos os cruzamentos têm como horizonte o mar, que encontramos esse contínuo museu, maioritariamente mandado erigir por gente rica, muito rica, os Cavaleiros de S. João. E mesmo quando a fachada é pobre, ao abrirem-se as portas, o impacto é devastador. Como máximo exemplo desta realidade, temos a Co-Catedral de São João de La Valleta, deixando qualquer um pregado ao solo, de olhos esbugalhados. São quadros de Caravaggio, espectaculares pinturas de tecto da autoria de Mattia Pretti, esculturas barrocas, tapeçarias... E quando os olhos descem ao solo, fica-se sem fôlego perante os túmulos de mármore colorido embutidos no pavimento, qual planície delicadamente pintada de múltiplas cores por mãos de grandes mestres. Mas este não é o único dos soberbos encantos oferecidos por esta ilha no sul do Mediterrâneo. Por nós vão desfilando o Museu de Valleta, com uma das maiores colecções da pintura clássica do mundo, as igrejas de Vittoriosa, de Attard, de Rabbat, ou o grande Teatro Manoel, uma das obras-primas mandadas erigir por Manuel de Vilhena, um dos Grão-Mestres portugueses. Mas esta é outra história. Depois, entra-se num dos muitos e típicos autocarros de transporte público da ilha, concentrados na entrada principal da cidade, às dezenas, todos iguais, todos da mesma cor amarela, com listas laranjas-avermelhadas e frisos prateados, construídos nos anos 50 e 60, tranquilamente esperando por turistas e locais para os transportar aos seus destinos, que geralmente termina numa visita obrigatória a Mdina, a Cidade do Silêncio e antiga capital. Hoje, ela é mais do que uma pequena cidade quase deserta, igualmente fechada entre muralhas, sobre uma pequena colina. Para entrar nas ruelas desertas de carros e de gente, emparedada entre palácios e igrejas, onde apenas se escutam os cascos dos cavalos que transportam turistas, temos que passar uma enorme porta que ostenta, à entrada, o nome de quem ali construiu um dos mais belos palácios da ilha. E esse nome é novamente o de Manuel de Vilhena, um nome que volta a aparecer num outro lado da ilha, a norte, no meio da bela baía de Marsamxett, a caminho de Salina Bay. Uma baía que rivaliza em beleza com a baía de Marsaxlokk, onde o movimento diário de coloridas embarcações afundadas em peixe nos mostram a riqueza humana de Malta. E ainda há Mside e S. Julians, por onde se estende a principal zona turística, com as suas avenidas, esplanadas e restaurantes, envolvidos por promontórios e marinas onde, para além dos mastros de elegantes iates, se misturam os "luzzus", pequenos e típicos barcos de pescadores, formando uma orgia de cores no meio de uma paisagem urbana pitoresca e viva. Mas Malta não é só Malta. Ela é também Comino e Gozo.
Para lá chegar, estão à nossa espera os ferries que, partindo do porto de Cirkewwa, nos transportam tranquilamente pelas águas calmas que separam estas três ilhas, assim como de Cominotto e Filfla, duas ilhotas que compoem o arquipélago. Pequenina, com os seus 2,7 km2, lá está Comino, com os seus apenas oito habitantes e toda a tranquilidade difícil de encontrar em outro lugar. Uma ilha onde não é permitido qualquer veículo motorizado que possa interromper toda aquela paz idílica, e onde a entrada de turistas é com rigor controlada. Numericamente, claro. Este é o paraíso para os amantes do mergulho, onde as rochas que penetram pelo mar cristalino lhe transmitem uma cor verde-azul, e onde encontramos a verdadeira Lagoa Azul. Não a do filme do mesmo nome, mas a genuína. A escassos vinte minutos da ilha-mãe ou a poucas milhas de Comino, encontramos a ilha de Gozo. Ao chegarmos, de nós apodera-se a sensação de que o tempo não passou por ali. Uma sensação maior quando chegamos a Xaghara, a mais antiga construção de pedra do mundo, aos templos megalíticos de Gjantija, uma construção mil anos mais velha que as pirâmides do Egipto. Esta é a ilha verde da ninfa Calipso, dos campos e vales que terminam abruptamente em penhascos, onde todos os caminhos vão dar à Baía de Dwejra para olhar a Janela Azul, onde o azul do céu e do mar se misturam. Mas há histórias mais recentes nesta ilha celeiro, em que o cultivo é feito em terraços construídos pelos árabes. São histórias contadas nas tascas das ruelas de Rabat, entre pedaços de queijo azeitado e picante, ou entre fatias de pão estaladiço besuntado com pasta de tomate, regado com azeite e polvilhado com pimenta verde. E é em Rabat, de seu nome original e como ainda lhe chamam os locais, mais tarde rebaptizada como Victoria, em homenagem à rainha inglesa que ali comemorou em 1897 o Jubileu de Prata, que se encontra outro belo exemplar da construção militar maltesa e europeia, a Cidadela. Mais uma obra genial dos Cavaleiros da Ordem de S. João. Dentro das muralhas que serviram durante séculos como santuário de protecção a diversas tentativas de invasão, dominando toda a panorâmica da ilha, os nossos passos vão percorrendo todo um museu construído em pedra dourada, onde a catedral de impõe. E lá está de novo o nome desse Grão-Mestre de origem portuguesa, Manuel de Vilhena. Depois, é regressar à ilha-mãe, ao porto de Cirkewwa e à Baía de Anchor, a tempo de descobrir um aglomerado de casas de madeira que mais parecem ter saído de um filme. Na realidade, perante nós ergue-se a aldeia de Popeye, um cenário propositadamente construído para o filme de Robert Altman, Doce Paraíso. Construída de raiz, com madeiras importadas do Canadá, este é sem dúvida um belo e colorido cenário aninhado num penhasco que beija as águas de intenso azul-verde, numa perfeita recriação da história escrita por Jules Feiffer, e agora transformada em mais uma atracção turística de Malta. Também aqui somos tentados a nos perdermos no tempo, uma tentação que se vai repetindo em qualquer recanto, ao ritmo nostálgico dos seus autocarros amarelos.    
 
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