Face à quebra do investimento e do consumo, a exportação é a chave contra a recessão. A bússola aponta para fora da Europa, mas os riscos cambiais espreitam. À banca, cabe abrir a torneira do crédito e, às empresas, apostar na inovação. De Espanha, sopram ventos contrários.
Num país mergulhado em austeridade, as exportações são hoje a única mola de crescimento, com o investimento do Estado e das empresas e o consumo privado deprimidos face às medidas impostas pela Troika.
Com o Produto Interno Bruto (PIB) a quebrar 1,6% no ano passado, e quando se espera uma nova contração de cerca de 3% para o final de 2012, exportar e apostar em novas geografias é, cada vez mais, sinónimo de expansão e constitui a única fuga a uma conjuntura económica sombria na Zona Euro. Acresce que as vendas ao exterior são uma forma de compensar as debilidades estruturais da economia portuguesa, que apresenta um défice comercial persistente.
Quanto aos destinos de exportação, embora a União Europeia (UE) a 27 continue a atrair cerca de três quartos dos produtos enviados por Portugal, os economistas são unânimes em defender a aposta em novos mercados, como o Brasil, os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), sobretudo Angola, norte de África, Europa de Leste e América Latina. No entanto, as exportações para estes destinos fora da área de influência da moeda única também levantam problemas, relacionados, por exemplo, com o protecionismo e os riscos cambiais.
Neste âmbito, o setor financeiro tem um papel a desempenhar. Para além da concessão de crédito, cujo volume também não escapou ao ajustamento económico e financeiro em curso, instrumentos como os seguros de crédito e os meios de cobertura de risco cambial, como os forwards cambiais, os futuros sobre taxas de câmbio ou os swaps cambiais, constituem incentivos à exportação.
Relativamente aos setores de maior potencial, e tendo sempre como linha orientadora a inovação e a qualidade, a aposta deve recair sobre as Tecnologias da Informação (TI), energias renováveis e indústria automóvel, sem descurar novos clusters, como a aeronáutica ou a biotecnologia. A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) afirma ainda a importância dos setores tradicionais, como o têxtil e o calçado, que apresentam quotas de exportação que chegam a superar a fasquia dos 90%. No fundo, os mercados alvo mais maduros devem ser atacados com produtos mais sofisticados, enquanto as economias emergentes e de mais rápido crescimento recebem artigos de menor incorporação tecnológica.
As exportações portuguesas vão continuar a crescer este ano, embora a um ritmo inferior ao observado em 2011, devido ao ambiente económico adverso à escala global, advertiu o Banco de Portugal (BdP). Em concreto, o Boletim Económico de primavera do banco central refere que as exportações devem aumentar 2,7% em 2012, quando, no ano passado, registaram um "crescimento robusto" de 7,4%. Em 2013, a instituição liderada por Carlos Costa aponta para uma aceleração até um crescimento de 4,4%.
Por outro lado, o BdP espera que as exportações portuguesas continuem a ganhar quota de mercado a nível internacional. Para este ano, a entidade antecipa um ganho de quota de 2%. A fatia do comércio internacional que cabe às exportações nacionais avançou 3,4% em 2011, um valor acima da média.
Perante este cenário, o dirigente do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI) Poul Thomsen sublinhou, em maio, que as vendas de bens e serviços portugueses "têm reagido com uma força surpreendente" ao programa de ajustamento.
Assim, no primeiro trimestre de 2012, as saídas de bens aumentaram 11,6%, em comparação com o período homólogo do ano anterior, enquanto as importações diminuíram 3,3%, com o Instituto Nacional de Estatística (INE) a destacar o desagravamento do défice da balança comercial. Acresce que, em valor absoluto, março representou um recorde, com as exportações a ultrapassarem, pela primeira vez, os 4 mil milhões de euros.
No último exercício completo (2011), as vendas de bens registaram um acréscimo de 15,4%, enquanto as exportações de serviços cresceram 9% contra 2010. As máquinas foram os produtos mais exportados, com 14,5% do total, enquanto a Alemanha, com uma quota de 13,6%, cresceu 20% e foi o mercado com o maior contributo para a subida global das exportações.
Nuvens em Espanha ensombram potencial exportador
Madrid formalizou, no início desta semana, o pedido de ajuda externa à banca espanhola, assumindo uma situação financeira que provoca ondas de choque em Portugal e, sobretudo, nas exportações.
A relação comercial com o parceiro ibérico é a mais importante para Portugal, tendo em conta que Espanha é o principal cliente dos produtos portugueses, tendo recebido um quarto (24,8%) das exportações portuguesas no ano passado. No mesmo sentido, o país vizinho é o maior fornecedor de Portugal, que absorveu uma fatia de 31,6% das suas importações a partir de Espanha.
Cerca de 4 mil empresas nacionais enviam os seus produtos para o mercado espanhol, num valor combinado de 10,5 mil milhões de euros por ano. Tendo em conta que as exportações são a válvula de escape para a crise instalada, o agudizar da recessão e a quebra do consumo em Espanha podem colocar em causa o potencial de crescimento futuro da economia portuguesa.
Os primeiros efeitos desta conjuntura adversa já foram sentidos, com as exportações portuguesas de bens para Espanha a quebrarem 4% nos primeiros três meses deste ano, apesar de terem crescido 11,6% a nível global. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), registou--se uma redução de 2,67 mil milhões de euros no primeiro trimestre de 2011 para apenas 2,56 mil milhões de euros no mesmo período do presente ano.
Para além das exportações, também o turismo pode sofrer o impacto do terramoto económico que ameaça Espanha. Em 2011, os turistas espanhóis ocuparam o terceiro lugar no ranking de visitantes em Portugal, gerando uma receita superior a mil milhões de euros.